HISTÓRIA DE SÃO GOTARDO

Os primeiros habitantes da região da Mata da Corda e adjacências, compreendendo também a faixa territorial em que se acha localizado o município de São Gotardo, anteriormente à fundação do primitivo arraial, derivam, certamente, das expedições que penetravam o sertão, não só visando à fiscalização da cata do ouro e comércio de pedras preciosas, como também povoando os lugares por onde passavam, construindo fazendas, fundando povoados, erigindo capelas. O chapadão que se denomina Mata da Corda, tendo como pórtico voltado para o nascente, o perfil paisagístico da Serra da Saudade, constitui em platô que se estende das nascentes dos rios Indaiá e Borrachudo, formando um arco geométrico ligeiramente voltado para o poente de cerca de 20 léguas de comprimento e 6 a 8 de largura, terminando nos municípios de Patos de Minas e Presidente Olegário. Outros municípios cujos territórios situam-se no todo ou em parte na Zona da Mata da Corda: São Gotardo, Rio Paranaíba, Matutina, Tiros, Lagoa Formosa, Arapuá, Carmo do Paranaíba. Verifica-se em alguns mapas geográficos a denominação "Serra da Mata da Corda" . Realmente, a altitude de cerca de 1.000 metros justifica o topônimo. Outrora, coberta de luxuriantes florestas, era como que um colossal tapete verdejante a refletir em dias de sol brilhante a pujança de suas riquezas. Hoje não existem mais aquelas matas em sua plenitude, devido ao machado impiedoso, mas da superfície do solo fértil, exala o cheiro do capim meloso, característico das terras produtivas. No ano de 1836, o cidadão Joaquim Gotardo de Lima e sua família, procedentes do arraial de Carrancas, Sul de Minas, seguindo roteiros às vezes incertos e duvidosos e, após dura jornada, chegaram ao sopé de uma colina à margem da Mata da Corda, em posição geográfica Oeste - Triângulo, onde hoje se encontra a cidade de São Gotardo. Aí permanecendo, construiu sua fazenda, cujas benfeitorias foram cobertas de princípio, com folhas de ouricana, uma palmeira então existente nas cercanias. Atraído talvez pelas notícias que corriam além, da fertilidade das terras e riquezas naturais daquelas paragens, Gotardo, revestindo-se de inaudita coragem afrontou as peripécias da viagem em demanda do sertão hostil na conquista de seus objetivos. Aí passando a residir, verificou que a população local aumentava dia a dia, tornando-se já volumoso o povoado pela afluência dos forasteiros que se fixavam no lugar. Gente trabalhadora certamente no cultivo da terra e na criação do gado já pensava em melhores condições de vida, à altura do trabalho aplicado no trato cotidiano à lavoura e a outras atividades rurais. Supunha-se a necessidade de prevalecer o sentimento cristão no culto da religião católica e, atendendo a estes reclamos, deliberou-se convidar o capelão do vizinho povoado de Santo Antônio dos Tiros, padre José Francisco, para celebrar a primeira missa que se realizou no paiol da fazenda, improvisado em capela, de vez que ainda não se construíra a do povoado, chamado "Confusão". O padre José Francisco, ao regressar, faleceu repentinamente, sendo sepultado em São Francisco das Chagas do Campo Grande. O mesmo paiol servindo de capela improvisada, nele foram ministrados os ofícios religiosos durante muitos anos. Joaquim Gotardo de Lima, por conseguinte, foi pioneiro na formação do primitivo arraial e o precursor de uma campanha que se tornou patriótica, qual seja a da fundação das bases de uma florescente povoação, que é hoje a cidade de São Gotardo. Construiu sua fazenda ao que consta, nas terras apossadas por Antônio Valadares, que, em tempos anteriores veio residir nas paragens, em local que se deduz, à margem do córrego, depois denominado "Confusão". Também não consta dos anais, doação de terrenos para patrimônio do arraial nascente.

Entretanto, houve doação do terreno exigido para constituir patrimônio do município a ser instalado em setembro de 1915. Comenta-se que em todas as terras, num círculo de 6 a 1o quilômetros da cidade, pertenciam à Fazenda Valadares, com mais de 500 posseiros ou condôminos e que, apesar de muitas tentativas perante a Justiça, a dita fazenda não fora dividida legalmente. Joaquim Gotardo de Lima foi nomeado Inspetor de Quarteirão, tendo tomado posse da investidura perante as autoridades competentes do arraial de Santo Antônio dos Tiros. Procedente de Rio das Mortes, o fazendeiro Domingos Pereira de Araújo Caldas veio formar sua fazenda - "Confusão", onde passou a residir e que foi situada no local hoje denominado "Campos Domingos Pereira" . De 1842 a 1850 as famílias Lopes e Rodrigues, procedentes de Santo Antônio das Pedras e Cajurú, vieram estabelecer-se nas fazendas da Gameleira e Broas, em plena Mata da Corda. As famílias de Gabriel de Resende, de Lagoa Dourada, de Bernardo Ladeira e Leonel Pires de Camargo, de Formiga, fizeram também suas fazendas no perímetro compreendido hoje pelo Município de São Gotardo. O Capitão Joaquim Gotardo de Lima teve por berço o então arraial de Carrancas, Sul de Minas, sendo seus progenitores Francisco de Ávila Fagundes e Maria Teresa de Assunção. Houve de D. Mariana, sua consorte, os seguintes filhos: Maria, casada com Francisco Fernandes Barbosa, Coleta, casada com o capitão Tristão Tavares de Almeida, natural de Santa Catarina e Urselino Gotardo de Lima. Faleceu em 27 de março de 1845. De acordo com registro no livro de Tombo da Paróquia de São Francisco das Chagas do Campo Grande (Rio Paranaíba), encontra-se o registro do sepultamento de Joaquim Gotardo de Lima naquela capela, no ano de 1845. Portanto, nove anos após sua chegada á nossa região. Pela lei 575, de 04 de maio de 1852, o povoado primitivo que tinha o nome de Confusão foi elevado à categoria de Distrito de Paz, passando a denominar-se São Sebastião do Pouso Alegre pertencendo ao município de Pitangui. Para esclarecimento do topônimo Confusão, no campo das pesquisas históricas encontram-se duas versões: uma de caráter lendário, conta que desbravadores do sertão mineiro, depois de atravessarem o rio Indaiá, alcançaram o local Guarda dos Ferreiros a poucos quilômetros do ponto em que se encontra hoje a cidade de São Gotardo. Habitavam a região os negros do Quilombo dos Poções e os índios Araxás que eram belicosos. Os expedicionários, em face de arrastarem um situação de luta, viram-se numa verdadeira "confusão" , porém, resolvida no propósito de seguirem caminho a Campo Grande, onde hoje se localiza a cidade de Rio Paranaíba. Aí, nos meados do século XVIII, houve luta entre quilombolas e expedicionários, sendo estes derrotados, porém, foram batidos posteriormente. No platô de Guarda dos Ferreiros existe o veio que dá origem à nascente do córrego ao qual se deu o nome de Confusão como ao primitivo povoado. Outra versão provém do seguinte: em 1821, quando a região era compreendida por larga faixa da Mata da Corda, pertencia eclesiasticamente à freguesia de Nossa Senhora da Dores do Indaiá, aí, compareceu o fazendeiro Domingos Pereira de Araújo Caldas, com o objetivo de fazer uma justificativa sobre suas terras. Ao ser interrogado disse ser proprietário e morador na fazenda Confusam, situada na dita freguesia. Ora, a cerca de 18 quilômetros de São Gotardo, nas cercanias dos rios Indaiá e Funchal encontram-se os campos "Domingos Pereira" por onde passa o córrego, também chamado antigamente Confusão pelos moradores circunvizinhos. Devemos concluir que a aludida fazenda estava situada na região dos mesmos campos e que a origem mais acertada provém de que o topônimo Confusam, no decorrer do tempo, modificou-se para "Confusão" indo recair depois no primitivo arraial, fundado pelo Capitão Joaquim Gothardo de Lima em 1836, isto é, 15 anos depois.

 

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